Review: Ancillary Justice

Ancillary Justice
Ancillary Justice by Ann Leckie
My rating: 3 of 5 stars

Abordei a leitura deste primeiro livro de Ann Leckie porque acabou de vencer este mês de Agosto mais um prémio literário do género de Ficção Científica, desta vez o prémio Hugo de 2014 para “Best Novel” depois de já ter conquistado, entre outras distinções, o prémio Nébula para “Best Novel” de 2013. Confesso que me deixou muito curioso o facto de o primeiro livro de uma nova autora conquistar tantos prémios diferentes (no total, 9 prémios para melhor romance de Ficção Científica), pelo que não hesitei em investir nesta obra.

Inicialmente, a história desperta algum interesse, mas é, desde logo, um pouco confusa, sobretudo devido a 2 aspetos: o narrador, e protagonista principal, é uma inteligência artificial (de uma nave) distribuída por 20 corpos físicos “auxiliares” (ancillaries) diferentes, e esta entidade, por dificuldades linguísticas, não faz muito bem a distinção entre os géneros masculino e feminino, pelo que trata todos os outros personagens que encontra como se fossem do género feminino (she, her), apesar de muitas destas serem efetivamente do género masculino. Ora, estes pormenores, combinados, dificultam um pouco a leitura dos capitulos iniciais, já que me obrigaram amiúde a repetir a leitura de parágrafos e mesmo de páginas inteiras para compreender a perspetiva que estava a ser narrada. Esta estranheza apenas se dilui ao fim de 1/4 do livro (pelo capítulo 10).

Para além disso, até ao capítulo12 há, necessariamente, a construção do mundo, com descrições sobre a cultura dominante (Radch), a raça conquistadora (Radchaai) e o último planeta a ser anexado ao respetivo império galático (planeta Shis’urna), existindo igualmente muitos diálogos com reflexões profundas sobre as implicações éticas e morais relacionadas com a forma como as raças conquistadas são dominadas e escravizadas pelos Radchaai. Nesta primeira parte do livro há menos ação e mais introspeção por parte dos personagens. Isto exige uma leitura mais demorada e atenta para a correta compreensão dos conceitos que são desenvolvidos. Uma característica peculiar desta autora é o facto de quebrar as falas do protagonista quando se encontra a meio de um diálogo, inserindo uma auto-reflexão sobre o que acabou de dizer, prosseguindo depois com a restante fala. Esta estratégia também obriga a uma atenção redobrada por parte do leitor.

A estrutura temporal escolhida pela autora desdobra os eventos descritos em duas narrativas paralelas até ao capítulo 12, em capítulos alternados, sendo que os capítulos ímpares se situam no passado recente e são narrados pela inteligência artificial da nave “Justice of Toren”, ao passo que os capítulos pares são narrados da perspetiva de Breq, um soldado humanóide “auxiliar” (ancillary) no qual esta inteligência artificial se vê descarregada, ficando reduzida ao respetivo conhecimento parcial e totalmente desligada da rede original por motivos que a narrativa irá desvendar.

Decorre destes aspetos que este livro possui uma estrutura complexa, com múltiplas dimensões para as perspetivas (passado versus presente / coletiva versus individual / nave-ou-máquina versus humana-ou-biológica) o que torna a leitura deste livro num desafio intelectual fora do comum. Tanto mais que a questão central do livro – o significado da personalidade individual num mundo de inteligências artificias e o significado da identidade individual num mundo onde existem inteligências artificiais distribuídas por vários corpos físicos – nunca é tratada com ligeireza pela autora, o que quer dizer que o livro não apresenta respostas simples para estes dilemas, requerendo que o leitor compreenda, digira e relacione as perspetivas que vão sendo esmiuçadas ao longo da narrativa.

A segunda metade do livro torna-se muito mais fluida e prende mais a atenção, na medida em que, apreendidos que estão os conceitos de base, a ação decorre com mais rapidez, e se torna mais evidente qual é a missão que o protagonista Breq tem que desempenhar e, sobretudo, qual é a sua motivação.

Apesar deste livro introduzir ideias bastante originais, através de uma escrita também ela pouco comum em livros de Ficção Científica, torna-se pesado em algumas partes e exige um esforço para prosseguir a leitura. Os aspetos mais interessantes para mim residiram no desenvolvimento de um personagem totalmente artificial que demonstra sentimentos, emoções, conseguindo relacionar-se com personagens humanos de uma forma que não permite distingui-la de uma máquina.

Em suma, trata-se de um livro para ler e refletir, exigindo algum esforço intelectual e fugindo das “Space Operas” mais convencionais. Recomendo para aficionados de SciFi.

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Sobre Nuno Magalhães Ribeiro

Professor Universitário e Autor especialista em Engenharia Informática.
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